Presidente da ANJE acredita que o empreendedorismo já entrou no dia-a-dia dos portugueses

NEGÓCIOS&FRANCHISING: Empreendedorismo. Esta palavra já entrou no léxico dos portugueses?

Francisco Maria Balsemão: É um tema cada vez mais recorrente. Fala-se de empreendedorismo na sociedade, na escola, o próprio Presidente da República também tenta chamar a atenção para ele. O empreendedorismo, no fundo, é uma atitude. Uma certa vontade de mudar as coisas e de promover a inovação no dia-a-dia. E um certo pragmatismo, também, de saber levar as coisas a bom porto.

 

N&F: Promove-se essa atitude na escola hoje?

F.M.B.: A ANJE tem, desde 1997, a Academia do Empreendedor que faz road show nas universidades e também nos liceus. E há cadeiras de empreendedorismo nas universidades e cursos de pós-graduação já muito mais focalizados no empreendedorismo. O ensino, por tradição, formata os alunos para trabalharem por conta de outrem, seja no privado seja no Estado, e o que se pretende com este tipo de iniciativas nas camadas mais jovens é que percebam que há uma alternativa. Que têm de pesar as duas hipóteses de vida de maneira igual. Sendo que nem todos têm jeito para ser empreendedores ou empresários, como é óbvio.

 

N&F: E é fácil ser empreendedor em Portugal?

F.M.B.: Não é fácil em lado nenhum. Mas é especialmente mais difícil nos países do Sul, nos países latinos, porque é um bocadinho ser contra a corrente. Vê-se-lhe associado uma certa dose de loucura, de risco. Quando se é mais novo, têm-se menos responsabilidades, é mais fácil poder arriscar. Mas não é fácil. Começa logo no próprio seio familiar, com os pais a dizerem-lhes ‘não te metas nisso, vai trabalhar, vai ter as tuas regalias’.E depois, quando se quer mesmo avançar com um negócio, há a questão do financiamento. Hoje há muitas ferramentas à disposição e até há uma quantidade razoável de dinheiro disponível, mas para se obter o financiamento pela via tradicional da banca, a malha está cada vez mais apertada.

 

N&F: E o medo de ser mal sucedido?

F.M.B.: Esse é um vetor muito importante. Em Portugal há o estigma do insucesso. Quem falhou, acabou. Não tem nova oportunidade. Na cultura anglo-saxónica, e em especial nos EUA, o insucesso até é valorizado. Os grandes empreendedores multimilionários fazem questão de colocar nos seus currículos que só à quinta ou sexta vez é que conseguiram fazer vingar a sua ideia. Isto, em Portugal, desmotiva as pessoas.

 

N&F: Portugal promove mais o comodismo, a situação fácil?

F.M.B.: Do conforto, sim. Mas, lá está, também, quando não se arrisca muito, tem-se estabilidade mas o retorno também é fixo e estável. O retorno é diretamente proporcional ao risco.

 

N&F: Como vê o movimento da ‘geração à rasca’?

F.M.B.: Prefiro chamar-lhes geração enrascada ou desmotivada e que espero que se desenrasque rapidamente. A verdade é que todas as gerações têm que se impor. A geração vigente, embora já tenha sido jovem, de certo modo defende o seu peso e olha para os jovens com uma postura dupla. Acha-lhes piada, mas, na prática, acaba por rejeitar tudo o que vem dos jovens. A dinâmica sociocultural do mundo é mesmo assim, eu no meu tempo de juventude se calhar embarcava em conceitos novos, e agora já sou mais conservador, é natural. A geração mais velha olha para a geração mais nova, para os seus conceitos e para a sua maneira de viver e acha aquilo muito estranho. No meu tempo também tivemos que lutar. A diferença é que, se calhar, na altura eram ‘sete cães a um osso’ e hoje são 70.

 

N&F: O mundo mudou ou foi a economia que se degradou muito?

F.M.B.: Em média, cada geração tinha uma qualidade de vida superior à anterior e isso agora inverteu-se. Já não vai ser assim. E é provável que os jovens também se tenham ressentido disso. Por outro lado, no meu tempo – e no do meu pai mais ainda – quem ‘tivesse um olho era rei’. Não só havia mais oportunidades, seja de carreira, emprego, gestão ou negócios, porque havia, ainda, um território muito vasto por explorar, como as pessoas conseguiam destacar-se. O acesso ao conhecimento era muito mais fechado e fazia a distinção. Hoje é mais complicado. O conhecimento está tão disseminado que é preciso um grande esforço para se ser diferente dos outros.

 

N&F: A nível laboral a situação também mudou muito…

F.M.B.: Sim. A economia desenvolveu-se muito mais depressa e as empresas têm que se adaptar muito mais rapidamente às mudanças. Antigamente, se calhar, eu mantinha o meu negócio inalterado e os meus clientes durante 50 anos, sem alterações tecnológicas ou novos negócios a aparecerem. Hoje tudo isso mudou. O que faz com que a própria noção de contrato de trabalho e de flexibilidade das pessoas se tenha alterado, porque a necessidade de contratar ou dispensar pessoas tem de ser muito mais rápida e isso levou ao aumento da precariedade. Nenhum empresário gosta de despedir, nem quer escravizar ou explorar os trabalhadores. Antes pelo contrário. Quem me dera poder pagar o dobro, era sinal que os lucros também eram em dobro, pelo menos. Mas foi essa alteração na dinâmica, com as empresas a terem de reagir rapidamente, porque as vendas caem 20% num ano e crescem 40% no ano a seguir, que levou a uma alteração nas relações laborais que veio provocar toda esta incerteza.

 

N&F: Dizia há pouco que há bastante dinheiro disponível para os empreendedores…

F.M.B.: O dinheiro existe, tem é de ser um projeto que valha a pena apoiar. Tem de ser qualquer coisa de inovador. Não tem de ser nada tecnológico ou laboratorial, mas tem que ser um bocadinho um ‘ovo de Colombo’. Diferentes maneiras de fazer a mesma coisa, mas de forma mais eficiente. Maneiras diferentes de fazer a mesma coisa, mas mais eficientes.

 

N&F: A crise tem dificultado o acesso ao crédito. Como é que as empresas sobrevivem sem crédito e os empreendedores arrancam com os seus negócios?

F.M.B.: É mais difícil. Têm de encontrar alternativas, como os business angels e o próprio franchising. Têm de ser criativos. O mais importante é a ideia de negócio. O empreendedor não se pode convencer que a ideia dele é a última ‘coca-cola do deserto’. Tem de cair na real, testar a ideia. Não basta ser boa, tem que gerar receitas, ser bem defendida comercialmente, senão alguém que a copie e tenha melhor aptidão comercial pode ser mais bem-sucedido.

 

N&F: Como antevê 2011?

F.M.B.: É difícil de dizer. Há a questão da nossa imagem para o exterior e que, acredito, que ficará resolvida no dia em que a crise política ficar resolvida.

 

N&F: Acha que se resolve assim tão depressa?

F.M.B.: Depende das eleições, se há um Governo maioritário ou não. Mas temos de estar conscientes que, pelo menos até 2013, as coisas serão difíceis. A única coisa que nos pode valer são as exportações e o aproveitar do crescimento dos outros mercados para trazer riqueza ao país.

 

N&F: Esse é o grande desígnio nacional, mas isso não se consegue por decreto…

F.M.B.: Não. Nós na ANJE estamos a tentar montar, de forma informal ainda, uma Academia do Exportador. Existe um projeto e estamos à espera de obter apoio, mas já temos alguns conteúdos mais vocacionados para a internacionalização das empresas. É preciso abrir mercados, encontrar parceiros locais ou uma rede de distribuidores e, logicamente, escolher muito bem os países para onde se quer ir. Muitas vezes não basta ir-se para um mercado que está a crescer porque já está saturado. Muitas vezes há países mais inusitados, mas que recebem muito bem os nossos produtos ou serviços.

 

N&F: Mas isso leva tempo, não?

F.M.B.: Leva algum tempo. Mas hoje obtêm-se informações sobre os países com alguma rapidez e temos a AICEP e a diplomacia económica que também ajudam. Tentar entrar num mercado não é um ‘bicho de sete cabeças’. Obviamente tem de se ir com cuidado, mas há que tentar.

 

N&F: É sobretudo a questão do ganho de confiança dos clientes…

I F.M.B.: Sim, claro. E as questões operacionais – se os clientes pagam a horas ou não, os seguros de crédito, etc. – mas que são importantes.

 

N&F: Fale-me desse projeto da Academia dos Exportadores

F.M.B.: É um projeto que temos já há algum tempo e que não avançamos mais por estarmos a tentar arranjar financiamento. É uma questão que está na ordem do dia e que nos interessa retomar. A qualquer momento fá-lo-emos.

 

N&F: Falando do mercado interno, menos crédito, menos consumo, menos emprego…

F.M.B.: Estamos a pagar a fatura do consumo errático. Nos últimos dez anos o mercado nacional foi suficiente para manter muitas empresas. E isso está posto de lado. A altura agora é de sacrifícios, de pouparmos um bocadinho mais, de não sermos tão consumistas. O problema depois é o efeito na economia…

 

N&F: Precisamente, e isso não é um ciclo vicioso?

F.M.B.: Pode não ser. Vai ser preciso encontrar um ponto de equilíbrio e mantê-lo.

 

N&F: Sair do euro é uma opção para nos ajudar a sair desta crise?

F.M.B.: Não. Claro que a saída do euro permitiria usar mecanismos que nos estão vedados, como a desvalorização da moeda, mas não sei se essa vantagem seria suficientemente benéfica para compensar tudo o resto. Creio que isso não faz sentido.

 

N&F: Os especialistas dizem que Portugal vai levar dez anos a fazer o reajustamento das suas contas públicas. Concorda?

F.M.B.: Espero que não seja tanto. Mas serão, certamente, três ou quatro anos à vontade.

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