Empreendedorismo aprende-se?

O tempo do empresário self made man parece ter os dias contados. A forte concorrência, cada vez mais global, e a exigência do cliente obrigam os ‘candidatos a empreendedores’ a procurarem formação específica. Alunos que criaram os seus negócios ou mudaram de carreira têm uma opinião clara: o curso foi fundamental para criarem ou avançarem com os negócios.

Será que se pode ensinar alguém a ser empreendedor? O ‘bichinho’ de querer ter um negócio próprio já tem de existir, mas um curso ajuda a dar corpo às ideias. Esta é a principal conclusão das conversas que tivemos com vários alunos de mestrados na área do empreendedorismo, no Porto e em Lisboa, e também com responsáveis de outras formações rápidas em empreendedorismo.

Escolhemos pós graduações com características diferentes – Mestrado Executivo em Empreendedorismo e Inovação do ISCET e MBA Executivo da EGP-UPBS – e também um curso curto – Empreendedorismo e Gestão de PME da UpSkills – mas, pelo que pudemos apurar, as conclusões são igualmente positivas.

“O MBA foi o caminho para a mudança”, conta-nos Emília Catarina Simões, que decidiu fazer o MBA da EGP-UPBS em agosto de 2009, depois de ter negociado a sua saída da empresa de telecomunicações onde esteve dez anos, no âmbito de um processo de restruturação. “A ideia de negócio surgiu durante a área de empreendedorismo do MBA”, explica.

Menos de um ano depois de acabar o mestrado – em abril de 2011 – Catarina Simões criou a Last2ticket que “aspira a mudar o modo como usamos os bilhetes para espetáculos, eventos, conferências, formações, etc.”, adianta a empreendedora.

Catarina Simões frisa que “o MBA Executivo tem um programa muito orientado par as pessoas com experiência de trabalho, onde há um conjunto de áreas de estudo que tocam na temática do empreendedorismo, embora o curso seja mais genérico”.

 

Ideia “debatida até à exaustão”

Também Catarina Diniz garante que “o mestrado do ISCTE e o apoio do Audax foram totalmente decisivos para a criação do projeto Home Staging Factory”, de que é sócia. E explica: “foi ao longo do curso que a ideia foi sendo discutida, desenvolvida e debatida até à exaustão para que se pudesse transformar num modelo de negócio ajustado às necessidades do mercado”.

A empreendedora assegura mesmo que “hoje posso dizer que se não tivesse feito o curso a esta hora estaria quase de certeza a trabalhar por conta de outrem” e lembra: “durante o curso pensei em várias ideias de negócio mas ao longo do tempo percebi que criar um negócio sozinha era muito mais difícil e menos interessante. Acabei por pegar num projeto que a minha irmã estava a tentar implementar em Portugal há uns tempos, o home staging, e no qual eu acreditava plenamente. (…) Criar um negócio cujo objetivo é aumentar a atratividade das casas para que se comercializem ao melhor preço e mais rapidamente era sem dúvida o nosso caminho”.

Mas mesmo para quem já tem uma empresa criada, o curso é importante. João Martinho, do ClubedoPão&Gourmet, considera que “o mestrado ajuda a amadurecer e a estruturar a ideia de negócio ou o negócio em si”. Criou a empresa em 2005, mas dois anos depois decidiu frequentar o mestrado do ISCTE pela “necessidade em obter respostas a uma série de perguntas para as quais não tinha resposta. Depois de uma avaliação da oferta que existia no mercado na altura (2007) o curso de empreendedorismo do ISCTE, quer pelas parcerias, quer pela qualidade dos tutores, pareceu-me o mais adequado para frequentar”.

Sobre o ClubedoPão&Gourmet, João Martinho diz-nos que o conceito “consiste em comercializar felicidade e coesão nas famílias e organizações. Explico: fornecemos serviços que permitem gerar a oportunidade de famílias e organizações, aproveitarem a hora do pequeno-almoço, almoço e lanche, para trabalharem em curtos espaços de tempo, as relações humanas. (…) Para já não falar do prazer em comer aquele pão acabado de fazer pelo padeiro”.

A possibilidade de franchisar e a internacionalização do conceito fazem parte dos planos.

À parte de ajudar à criação de novas empresas, estes cursos são também ferramentas de mudança e/ou avanço de carreira. João Pedro Amaral, diretor-geral da IdeiaBiba, que tirou o MBA da EGP-UPBS, diz que “o que aconteceu, e fui sentindo ao longo do curso, foi a existência de uma maior vontade de aplicar tudo aquilo que ia aprendendo, inclusive a mudança de cargo na empresa está associada à frequência do curso e também à mudança de gestão e de proprietário da empresa”, adiantando que “apesar de não ser proprietário, falando por mim e pelos meus colegas de trabalho, todos ‘vestimos’ a camisola da empresa, e penso que isso também é um fator de sucesso”.

A IdeiaBiba foi criada em 2000 e João Pedro Amaral ingressou na empresa em maio de 2004. “Comecei por fazer um estágio profissional, depois passei para gestor de projeto/eventos, mais tarde fui coordenador, e em julho de 2011 [quando terminou o curso] passei a diretor-geral”, explica.

Segundo João Pedro Amaral, o mestrado deu-lhe “capacidade de saber gerir as ideias e saber torna-las exequíveis. Não basta ter uma grande ideia há que saber executa-la. Estar atento às necessidades do mercado e dos clientes e não ter receio de inovar. É fundamental ter visão, saber liderar e ter método”.

Sobre a IdeiaBiba, o responsável diz que “existe porque as pessoas têm sonhos que podem ser concretizados. As crianças, os adultos e as empresas. (…) Nós geramos negócio gerando sonhos, sonhos esses que nos levam a um incrível mundo do imaginário onde crianças e adultos podem e devem participar vivendo experiências únicas e memoráveis”, explica o diretor-geral.

 

Uma ferramenta de gestão

Quanto aos cursos rápidos que várias empresas de formação oferecem, João Sérvulo Correia, diretor da UpSkills – que lançou a 20ª edição do curso de Empreendedorismo e Gestão de PME – defende que “nos tempos que correm é essencial oferecer ferramentas de gestão a todos os que pretendam abrir o seu próprio negócio. O facto de ser um curso de curta duração permite-nos chegar a todo o tipo de público, de diversas áreas, idades, qualificações e condições económicas”, sublinhando: “além disso este é um curso teórico-prático, tal facto permite que os formandos tenham acesso a tantos conhecimentos num curso de menor carga horária quanto num de maior duração”.

O curso tem a duração de 72 horas, durante cerca de um mês, em horário pós laboral (segunda a quinta, das 18h30 às 22h30).

Mas apesar da curta duração, também já deu vários frutos em termos de formando que criaram o seu próprio negócio. É o caso de Artur Sousa, arquiteto, que criou a DIMSCALE – Medição e Consultoria (presta serviços de consultoria para arquitetura e engenharia), cerca de um ano depois de fazer o curso.

“O curso dá uma visão bastante abrangente da realidade da gestão das pequenas empresas, essencial para quem quer começar um negócio próprio. Ajuda a sistematizar as ideias que temos e a planificar melhor os nossos objetivos”, afirma Artur Sousa, num testemunho enviado através da UpSkills. O curso “é bastante completo, pois aborda temáticas desde a gestão de novas ideias até à sua execução prática, passando pela não menos importante vertente financeira. O curso ajudou-me a direcionar os meus esforços num determinado sentido, podendo-se dizer que no final do curso já tinha uma ideia bastante clara dos próximos passos a dar”, conclui.

O diretor da UpSkills assegura, por seu lado, que “existem cada vez mais pessoas interessadas nos cursos de Empreendedorismo, pois procuram criar o seu próprio negócio/emprego”, adiantando que “o público que procura este curso é essencialmente constituído por desempregados à procura de novo emprego, jovens que pretendem criar o seu próprio negócio/emprego e outros que pretendam obter conhecimentos de gestão de empresas”.

 

Destaque para a componente prática

Mas a componente prática e de apoio direto aos projetos dos formandos é igualmente característica do mestrado executivo do ISCTE, principalmente por estar associado ao Audax.

Em setembro de 2001, o INDEG/ISCTE-IUL lançou a primeira edição do Programa de Especialização em Empreendedorismo e Criação de Empresas, um programa pioneiro que viria a materializar-se na criação do Audax, o Centro de Empreendedorismo do ISCTE-IUL, e a dar origem ao novo Mestrado Executivo em Empreendedorismo e Inovação. “Em pouco tempo, este programa assumiu-se como uma referência no panorama universitário português, frequentado por mais de 180 participantes e dando origem a mais de 30 projetos originais e inovadores”, diz-nos Rui Ferreira, professor do mestrado.

“O Mestrado Executivo em Empreendedorismo e Inovação pretende acolher licenciados de todas as formações, com significativa ou reduzida experiência profissional, e que tenham como objetivo principal o desenvolvimento de novos projetos empresariais inovadores”, adianta o professor, acrescentando: “este Mestrado Executivo faculta ainda o acesso dos participantes a entidades do sistema financeiro e potenciais parceiros de negócio, contando para o efeito com o apoio do Audax-IUL”.

Catarina Diniz da Home Staging Factory conta à NEGÓCIOS&FRANCHISING que “depois de analisar diversos cursos de empreendedorismo, decidi-me pelo do ISCTE principalmente pela sua componente prática e ligação ao mundo do empreendedorismo. Percebi que não era apenas mais um curso teórico mas que estava estruturado para ajudar os alunos a criar um negócio real”.

O curso tem a duração de um ano letivo em horário pós laboral e ao sábado.

 

Valorizar o networking

Por seu lado, o MBA Executivo da EGP-UPBS “está pensado e foi estruturado para conferir uma formação gradual e completa, combinando a componente das ferramentas técnicas essenciais à gestão das empresas, com uma forte componente de soft skills, como sejam o desenvolvimento pessoal, as técnicas de comunicação, a capacidade de decisão, a liderança e a gestão de equipas”, explica o site da Business School da Universidade do Porto, adiantando que o curso “foi concebido de forma a admitir participantes com formações e experiências prévias diversificadas e provenientes de variados setores de atividade, tendo em comum alguma experiência em gestão”.

O Mestrado Executivo da EGP-UPBS foi lançado em 2000 e tem uma média de 70 alunos por ano, sendo assim o maior MBA do país. É também o mais sénior, com um perfil de alunos que tem, em média, 11 anos de carreira profissional, sendo condição de acesso um mínimo de cinco anos de experiência. Um perfil de turma muito valorizado por quem procura um MBA por ser sinónimo de mais renovação de conhecimentos, multidisciplinaridade e networking dentro da sala de aula.

Daí, o diretor-geral da IdeiaBiba afirmar que a sua procura de fazer um mestrado “surgiu num momento em que sentia uma fase de estagnação relativamente à minha carreira e considerei que a EGP oferecia um programa interessante do ponto de vista de aprendizagem e possível evolução a nível profissional. O corpo docente e a possibilidade de networking também foi um dos motivos que me levou a escolher a EGP”.

O curso, lecionado em português e inglês, tem uma duração de 620 horas ao longo de 13 meses em horário pós laboral e ao sábado e inclui uma semana de formação numa escola internacional parceira.

 

EMÍLIA FREIRE

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